A ANGÚSTIA DE EXISTIR


Tenho pensado demais na finitude da vida.

No agora, no depois
e nessa travessia silenciosa
que ninguém sabe explicar.

Há noites em que desperto assustada,
sem compreender se ainda estou aqui
ou se, de algum modo, já parti.
Toco o meu corpo, escuto a minha respiração,
procuro algum sinal de permanência como se estar viva fosse um sonho frágil
do qual posso despertar a qualquer instante.

Eu prefiro acreditar que não terminamos aqui.
Que existe alguma coisa depois da última despedida.
Que a consciência encontra outro lugar,
que a alma reconhece algum caminho
e que a morte não é um fim,
mas uma passagem que ainda não aprendemos a compreender.

Prefiro acreditar nisso
porque a ideia do nada me atravessa
como um abismo.

Ainda assim, a dúvida permanece.

Pergunto-me por que estamos aqui.
Por que trabalhamos tanto, corremos tanto,
nos ferimos por tão pouco
e desperdiçamos pedaços inteiros da vida
com coisas que, diante da eternidade,
não possuem importância alguma.

Para que tanto orgulho, tanta pressa,
tantas palavras que deixamos de dizer?
Para que adiar o abraço, o perdão, a viagem,
o amor e a coragem de sermos quem somos,
se o tempo continua passando
sem pedir licença?

No fim, todos caminhamos
em direção ao mesmo mistério.

Não importa o nome, a história, a riqueza,
a beleza ou tudo aquilo que conseguimos acumular.
Um dia, a Terra nos chamará de volta.
Voltaremos à grande mãe de onde viemos,
ao ventre escuro e antigo
que recebeu todos os que existiram antes de nós
e que, um dia, também receberá
cada pessoa que amamos.

Talvez seja isso o que mais me dói:
ninguém consegue me prometer que ficaremos.

As pessoas tentam me consolar,
oferecem palavras, crenças e explicações,
mas nenhuma dessas pessoas é imortal.
Nenhuma atravessou o fim
e voltou trazendo nas mãos
a resposta que procuro.

Elas também sentem medo.
Também partirão.
Também serão silêncio, lembrança, ausência. Serão esquecidas. 

Como poderiam oferecer o remédio para a minha angústia
se carregam dentro de si
a mesma sentença?

Não há palavra humana
capaz de retirar completamente essa dor do meu peito.
Porque todas as palavras são ditas
por bocas que um dia também se calarão.

E é isso que me atormenta:
amar aquilo que o tempo pode levar.
Construir sabendo que tudo se desfaz.
Encontrar pessoas sabendo que haverá despedidas.
Habitar um corpo sabendo que ele é provisório.
Estar viva sabendo que viver
é caminhar, mesmo sem querer,
em direção ao desconhecido.

Mas talvez a minha angústia exista
porque amo profundamente as pessoas, as sensações, a vida…

Talvez eu tema o fim
porque ainda existem olhos que desejo contemplar,
lugares que quero conhecer,
palavras que preciso dizer
e versões de mim que ainda não tive tempo de ser.

Talvez toda essa dor seja o amor
percebendo que não pode deter o tempo.

Não sei o que existe depois.
Não sei como será a travessia.
Não sei se encontraremos luz, reencontro, silêncio
ou uma forma de existência
que a linguagem humana ainda não consegue alcançar.

Eu não tenho respostas.

Tenho apenas esta esperança teimosa
de que aquilo que amamos verdadeiramente
não desaparece por completo.
De que alguma parte de nós permanece
na vida que tocamos,
nos gestos que oferecemos,
nas memórias que deixamos
e talvez em algum lugar invisível
onde o amor não precise se despedir.

Enquanto isso, continuo aqui,
entre o medo de partir
e o espanto de ainda existir.

Tentando respirar dentro do mistério.
Tentando não perder o presente
por temer demais o futuro.
Tentando transformar a angústia em consciência,
a consciência em presença
e a presença em amor.

Porque, se tudo realmente for passageiro,
então que eu não passe pela vida distraída.

Que eu esteja inteira enquanto estiver aqui.
Que eu ame antes que o tempo leve.
Que eu diga antes que a voz se cale.
Que eu abrace antes que os braços se tornem ausência.

E que, quando a Terra finalmente me chamar de volta,
eu possa retornar a ela levando comigo
a certeza de que, apesar do medo,
eu não apenas existi.

Eu vivi.

JP


Comentários

  1. É isso. As pessoas ficarão na nossa memória. Por isso é tão importante entender o que deixaremos de legado. Como as pessoas se lembrarão de nós. Linda reflexão.

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